Capa: Há nove anos que sou casado e tenho três filhos. E pela primeira vez não sei se devo continuar.

Há nove anos que sou casado e tenho três filhos. E pela primeira vez não sei se devo continuar.

Em resumo

Um marinheiro canadiano está casado há nove anos com uma mulher de Pattaya e tem três filhos. Agora enfrenta a pergunta mais difícil da sua vida.

Trabalho em navios mercantes. Passo a maior parte do ano no mar.

Há anos, o trabalho levou-me à Tailândia pela primeira vez. Não demorei a apaixonar-me pelo país. Pelo calor, pela comida, por um ritmo de vida que não tinha nada a ver com os cais canadianos de onde vinha.

Numa dessas viagens conheci uma mulher tailandesa. Nok. As coisas avançaram depressa entre nós, como costumam avançar quando um homem passa semanas em terra entre travessias e sabe que o relógio corre de forma diferente para ele do que para os outros.

Pouco depois engravidou. Casámos. Foi há nove anos. Desde então tivemos três filhos juntos.

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Por causa do meu trabalho, passei a maior parte do nosso casamento a viajar entre a Tailândia e o Canadá. Meses no mar, semanas em casa, e de novo ao princípio. A Nok nunca quis mudar-se para o Canadá. Aceitei isso e tentei que funcionasse o melhor possível.

Os primeiros cinco ou seis anos foram bons. Genuinamente bons. Discutíamos pouco. Quando voltava de uma viagem longa, parecíamos sempre felizes por nos vermos, como se o tempo separados nos desse vontade de recuperar em vez de nos desgastar.

Envio à minha mulher cerca de cinco mil dólares por mês. Cobre contas, comida, os filhos, tudo o necessário para uma vida confortável em Pattaya.

O problema é que nos últimos anos ela quase sempre pede mais antes de o mês terminar. Normalmente a razão tem a ver com os filhos, por isso acabo por enviar porque não quero que lhes falte nada.

Quanto mais isto acontece, mais me pergunto para onde vai realmente esse dinheiro.

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O dinheiro não é o único problema.

Tenho a sensação de que já não consigo fazer nada bem. Qualquer decisão que tome está errada aos olhos dela. Fica zangada com coisas que antes nunca tinham sido um problema.

Está constantemente a ter novas ideias de negócio que quer que eu financie. Um mês é uma lavandaria. No seguinte, um cabeleireiro. Depois outra coisa. Numa altura quis que comprasse um terreno perto da casa da família dela. Outra vez quis abrir um bar em Pattaya.

Disse não a tudo.

Ao longo dos anos tentei falar com ela sobre mudarmo-nos para o Canadá. Os filhos teriam mais oportunidades e eu poderia passar muito mais tempo com eles, em vez de meses no mar seguidos de semanas em terra. Sempre que levanto o assunto, ela corta a conversa de imediato.

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O que realmente me afecta é o quão diferente ela é agora comparada com a mulher com quem casei.

Quando estamos separados, a maioria das nossas conversas acaba por ser sobre dinheiro. Às vezes mal responde às mensagens durante dias. Depois, de repente, contacta-me quando precisa de algo.

Há uns anos admitiu que, quando nos conhecemos, mentiu sobre precisar de dinheiro para a família dela. Perdoei-a porque naquela altura não estávamos a sério e foi ela quem me confessou sem que eu descobrisse sozinho. Olhando para trás agora, pergunto-me se deveria ter sido um sinal de alarme maior do que entendi na altura.

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A parte mais difícil em tudo isto são os filhos.

Algumas vezes, durante discussões, disse-me que nunca mais os verei. Não sei se fala a sério ou se é dito no calor do momento. Mas ouvir isso é suficiente para me fazer duvidar de tudo.

Uma parte de mim sente que o casamento acabou há algum tempo, mesmo que continuemos juntos no papel. Outra parte receia que, se for embora, perca os meus filhos. Não apenas o contacto diário, mas o direito legal de estar presente nas suas vidas, num país onde as leis de custódia nem sempre favorecem o pai estrangeiro.

Amo os meus filhos mais do que tudo. Não me arrependo de os ter tido. São a melhor coisa que alguma vez me aconteceu.

Mas nunca esperei encontrar-me numa posição em que, após nove anos, estou a questionar o meu casamento e a perguntar-me se preciso de advogados em dois países diferentes só para continuar presente na vida dos meus filhos.

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Não tenho uma resposta clara para nada disto, e não vou fingir que tenho.

O que sei, depois de meses a pensar nisto em cada travessia, em cada turno nocturno a olhar para o mar, é isto: o dinheiro que envio todos os meses nunca foi o verdadeiro problema. O verdadeiro problema é não saber se a pessoa do outro lado dessas chamadas continua a ser a mulher com quem casei, ou se essa pessoa desapareceu algures entre o quinto e o sexto ano e eu continuei a enviar dinheiro a uma versão dela que já não existe.

Continuo no mar a maior parte do ano. Continuo a enviar o dinheiro. Continuo a ligar aos meus filhos sempre que tenho cobertura.

E continuo sem saber, sinceramente, qual é a decisão certa.

A única coisa que tenho clara é que ficar calado, ano após ano, à espera que as coisas melhorem sozinhas, também não é uma resposta.

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