Tive mais de cem correspondências numa aplicação de encontros na minha primeira noite na Ásia. Uma atravessou uma fronteira para me conhecer, e estava casada, com três filhos.
Em resumo
Um engenheiro australiano de 26 anos, recém-chegado à Ásia para um emprego na energia hidroelétrica, descarrega uma aplicação de encontros na primeira noite em Vientiane e consegue cem correspondências em horas. Uma mulher tailandesa atravessa a fronteira desde Nong Khai para o conhecer. Dias depois, uma pesquisa no Facebook revela que ela é casada com um europeu rico e tem três filhos.
Antes da covid passei quatro anos a trabalhar no setor da energia hidroelétrica pelo norte da Tailândia, Isan e Laos. Agora levo uma vida de escritório bastante aborrecida de volta à Austrália, manhãs de folhas de cálculo, lugar de estacionamento atribuído, café instantâneo, mas esses quatro anos deram-me mais histórias do que aquelas de que consigo lembrar-me todas, algumas que nem sequer contei aos meus amigos mais próximos.
Esta é da minha primeiríssima semana no sudeste asiático.
Tinha 26 anos, tinha acabado de conseguir o meu primeiro contrato a sério como engenheiro hidroelétrico, e tinha-me mudado de uma cidade agrícola no interior da Austrália onde as minhas hipóteses de conhecer alguém eram praticamente nulas. Nada de cinema, nada de bares com caras novas, nada de aplicações com mais de três perfis ativos num raio de cem quilómetros. A maioria dos fins de semana por lá resumia-se a uma refeição no pub com as mesmas seis pessoas que conhecia desde a escola primária. Aterrei em Vientiane sem nunca ter posto os pés na Ásia, com uma mala grande demais e nenhuma ideia do que me esperava.
O calor era diferente logo ao sair do aeroporto, denso, pegajoso, nada a ver com o calor seco a que estava habituado. Depois veio aquela sensação estranha de ter recuado no tempo: motas por todo o lado, fios a cruzar as ruas em todas as direções, mercados de rua, edifícios que pareciam não ter mudado em quarenta anos. Fiquei parado à porta do terminal um bom bocado, só a olhar, antes de me preocupar em arranjar um táxi.
Havia pobreza visível por todo o lado, telhados de chapa ao lado de terrenos vazios, cães a dormir no meio das ruas secundárias, e mesmo assim as pessoas locais pareciam felizes, a sorrir constantemente, sem aquela atitude fechada a que eu estava habituado lá em casa. E as mulheres eram atraentes, femininas, com uma natureza humilde completamente diferente de tudo o que eu conhecia na Austrália.
Estou em boa forma, treino regularmente, mas lá em casa raramente chamava a atenção de alguém, nem no ginásio, nem no pub, em lado nenhum. Em Vientiane senti-me uma celebridade logo no primeiro dia. Olhares, sorrisos, uma ou outra risadinha entre grupos de amigas quando eu passava por uma banca do mercado. Não sabia bem o que fazer com aquilo, por isso sorria sobretudo de volta como um idiota feliz.
O problema era que quase ninguém falava inglês, por isso qualquer tentativa de conversa na rua ou numa banca de comida morria ao fim de dois minutos entre gestos e risadinhas nervosas de ambos os lados. Na primeira noite, sozinho no quarto do hotel sem nada para fazer, descarreguei uma aplicação de encontros, mais por tédio do que outra coisa, sem grandes expectativas. Em poucas horas tinha mais de cem correspondências. Lá em casa, na minha cidade, tinha sorte se conseguisse uma por dia, e normalmente de alguém que conhecia desde sempre.
Passei um bom bocado a deslizar o telemóvel sem grande critério, ainda incrédulo com os números, até que um perfil se destacou dos outros. Uma mulher tailandesa chamada Noi, um pouco mais velha do que eu, a viver em Bangkok mas nesse momento em visita à família mesmo do outro lado da fronteira, em Nong Khai. Começámos a escrever-nos ainda nessa noite. Contei-lhe que tinha acabado de chegar, que não conhecia ninguém na cidade, e que a ideia de passar a semana toda sozinho me deixava um pouco nervoso. Perguntei-lhe, meio a brincar, se lhe apetecia atravessar até Vientiane para me conhecer. Aceitou sem complicar, como se atravessar uma fronteira para conhecer um desconhecido fosse a coisa mais normal do mundo.
Encontrámo-nos à porta de um restaurante no dia seguinte, a meio da tarde. Impressionante. Baixinha, esguia, com uma figura ótima, sem tatuagens, vestida como se tivesse saído de uma revista e não de uma cidade fronteiriça. Falava um inglês perfeito, quase sem sotaque, que segundo me contou tinha aprendido a viver na Europa por trabalho durante uns anos. Na altura pareceu-me uma explicação bastante razoável, até admirável.
Com mais uns anos de Tailândia às costas viria a perceber que um inglês assim tão bom costuma significar namorados que falam inglês, não escolas de línguas nem intercâmbios culturais. Mas isso só aprenderia muito mais tarde, com outras mulheres, noutras cidades.
Pedimos uma mesa cheia de pratos que ela escolheu sem sequer olhar para a ementa, como se fosse o seu restaurante habitual, e convenceu-me a experimentar camarão cru regado com lima e piri-piri, que o meu estômago recebeu com bastante menos entusiasmo do que eu. Rimos muito, ela a corrigir a minha pronúncia de algumas palavras em tailandês, eu a tentar não pensar muito no camarão. Depois bebidas num bar com vista para o rio Mekong, já de noite, as luzes da Tailândia a brilhar do outro lado da água. Depois de volta ao hotel dela, um dos melhores de todo o Laos, lobby de mármore, um porteiro que nos abriu a porta como se fôssemos alguém importante, o que a mim, recém-saído de uma cidade de três ruas, me fez sentir como se tivesse entrado na vida de outra pessoa.
Depois uma discoteca a rebentar pelas costuras numa terça-feira qualquer, algo que lá em casa pareceria impossível a meio da semana, música tailandesa ensurdecedora, torres de cerveja enormes em cada mesa, festa até altas horas da madrugada. Não conseguia acreditar que uma mulher tão pequena conseguisse acompanhar-me a beber, e depois ultrapassar-me, sem que alguma vez se notasse.
Sopa de noodles numa banca de rua às quatro da manhã, sentados em bancos de plástico sob luz fluorescente, rodeados de gente que parecia ter passado a mesma noite que nós, tuk-tuk de regresso com o ar quente na cara, e no geral uma noite de que ainda hoje me lembro inteira, ao pormenor.
A manhã chegou e ela voltou para Nong Khai, do outro lado da fronteira.
Continuámos a falar pelo WhatsApp nos dias seguintes enquanto ela voava de volta para Bangkok e eu começava a instalar-me no projeto, a aprender os nomes de colegas tailandeses e laocianos que não conseguia pronunciar bem à primeira. Mensagens normais, uma foto ocasional do voo, planos vagos de nos voltarmos a ver se alguma vez eu passasse pela capital.
Uma noite, sem nada melhor para fazer e com aquela curiosidade tola que às vezes sai cara, procurei-a no Facebook.
Era casada. Com um europeu bastante mais velho do que ela. E tinham três filhos juntos, os três com aquela mistura de traços que denunciava de imediato quem era o pai.
As fotos deixavam bem claro que o marido não só era mais velho, como era rico: uma casa que não parecia real, piscina e jardim tratados por alguém que não era ela, carros que eu nunca poderia pagar mesmo trabalhando mais trinta anos, férias que enchiam álbuns inteiros em sítios que eu só tinha visto em revistas. Fiquei ali sentado a olhar para o ecrã por um bom bocado, a recuar nas fotos, à procura de uma data, de algo que desmentisse aquilo. Não encontrei nada assim. Se algo, as fotos mais antigas pioravam as coisas — aquilo não era novo, era claramente assim há anos.
Cresci numa família bastante conservadora e sempre respeitei o casamento como uma espécie de linha que não se cruza, por isso não sabia bem o que sentir. Não sabia de antemão, por isso tecnicamente não era culpa minha, mas ainda assim fiquei com uma sensação incómoda que não se desfazia facilmente.
Decidi não dizer nada nem confrontá-la com isso. Dei voltas ao assunto durante uns dias, a pensar em escrever-lhe alguma coisa, uma pergunta indireta para ver o que respondia, mas no final não vi qual seria o objetivo. Não havia nada a ganhar, e eu não queria ser eu a causar drama na família de outra pessoa, a milhares de quilómetros de distância, num país onde eu vivia há uma semana e ela a vida inteira. Segui simplesmente em frente, parei de dar voltas ao assunto, e com o tempo, sem nunca haver uma conversa desconfortável, deixámos de falar por completo.
Foi uma introdução bastante direta a uma realidade que levaria anos, e mais umas quantas mulheres, a compreender por completo: o casamento não significa a mesma coisa para toda a gente, e uma aliança no dedo nem sempre conta a história toda, sobretudo quando o marido vive a um voo de distância e há dinheiro suficiente para que ninguém faça perguntas a mais.
O curioso, pensando nisto agora com quatro anos inteiros de Tailândia e Laos nas costas, é que se a família dela não estivesse de visita a Nong Khai precisamente naquela semana, ela nunca teria atravessado até Vientiane para me conhecer. A noite toda, a discoteca, o camarão cru, a sopa de noodles às quatro da manhã, tudo dependeu inteiramente de uma coincidência de calendário familiar do outro lado de uma fronteira. Um acaso geográfico, mais nada.
Foi uma semana de olhos bem abertos, a primeiríssima que passei na Ásia, e nem sequer tinha ainda chegado à Tailândia. Os quatro anos que se seguiram deram-me muitas mais histórias parecidas, algumas piores, uma ou outra até melhor, mas nenhuma ficou tão gravada como esta, precisamente por ser a primeira. Deu o tom a tudo o que veio depois, de uma forma que só agora realmente aprecio, sentado a uma secretária do outro lado do mundo.