Capa: Fui a Banguecoque para ver o mundo. Em Chiang Mai encontrei algo que não procurava.

Fui a Banguecoque para ver o mundo. Em Chiang Mai encontrei algo que não procurava.

Em resumo

Um americano de 45 anos chegou à Tailândia sem qualquer plano. Num pequeno café de Chiang Mai, um sorriso genuíno mudou o rumo de toda a sua vida.

Não vim para a Tailândia à procura de amor.

Digo isto porque é importante esclarecer desde o início. Quando se conta uma história destas, as pessoas assumem coisas. Assumem que eras um homem solitário, partido, à procura de algo que não conseguias encontrar em casa. E de certa forma tinham razão, mas não da forma que pensam.

Chamo-me Daniel. Quarenta e cinco anos. Consultor de tecnologia de Seattle. Divorciado há três anos, sem filhos, com um trabalho que podia fazer de qualquer parte do mundo desde que tivesse WiFi e um café decente. Passava meses a explorar Banguecoque quando decidi apanhar um comboio noturno para Chiang Mai, basicamente porque um tipo num hostel me disse que era diferente e que se lá não tivesse estado não tinha estado verdadeiramente na Tailândia.

Esse conselho mudou a minha vida. Não de forma dramática, não naquele momento. Mas a cadeia de decisões que começou naquele cais de comboio às onze da noite terminou com o meu nome num registo de casamento em Chiang Mai dois anos mais tarde.

Cheguei a Chiang Mai numa terça-feira de manhã.

Deixei a mochila na pensão, tomei banho, e saí a andar sem rumo pela cidade antiga. Há algo em Chiang Mai que Banguecoque não tem: espaço para pensar. As ruas são mais largas, o ritmo mais lento, o ar — embora não seja exatamente limpo — parece menos carregado do que o da capital.

A meio da manhã entrei num café pequeno, daqueles que não têm letreiro em inglês mas que têm três pessoas sentadas lá fora com computadores portáteis com ar de estarem ali há horas. O tipo de sítio que se encontra quando se viaja há tempo suficiente para ter deixado de procurar o Starbucks mais próximo.

Pedi um café com leite no meu tailandês horrível. A mulher atrás do balcão riu-se — não de forma maliciosa, mas da forma como alguém ri quando algo lhe parece genuinamente engraçado — e respondeu-me em inglês perfeitamente fluente.

Chamava-se Noi.

Vinte e nove anos. Natural de Chiang Mai, tinha estudado linguística em Banguecoque e voltado a casa depois de dois anos a trabalhar num hotel de luxo em Sukhumvit. O café era da tia. Ela geria-o três dias por semana enquanto montava o seu próprio negócio de tradução freelance.

Fiquei a saber tudo isso nessa primeira conversa, que durou mais do que um café com leite. Depois mais do que o almoço. A meio da tarde ainda estava sentado no mesmo banco e ela continuava a falar comigo entre clientes.

Não foi amor à primeira vista no sentido cinematográfico. Foi algo mais interessante: a percepção de que tinha estado a ter conversas de dez minutos com toda a gente durante meses, e que de repente estava a ter uma conversa real.

Falámos de idiomas, de como o tailandês tem tons que fazem com que a mesma sílaba possa significar cinco coisas diferentes dependendo de como a pronuncias. Falámos de Seattle, da chuva, de porque é que alguém abandonaria voluntariamente um lugar onde chove nove meses por ano. Falámos do que significa voltar a casa quando se esteve fora algum tempo e se isso alguma vez deixa de ser complicado.

Voltei no dia seguinte. E no outro.

Há 16 anos entre a Noi e eu. Não ignorámos isso, mas também não lhe demos mais peso do que merecia. A Noi era uma mulher de 29 anos com uma clareza sobre o que queria da sua vida que eu não tivera à idade dela e que não tenho agora. Não me tratava como um homem mais velho com experiência que lhe mostraria o mundo. Tratava-me como alguém com quem queria partilhar o dela. Isso é uma diferença importante.

As primeiras semanas foram o que as pessoas chamam de namoro embora nenhum de nós usasse essa palavra. Cafés que se tornavam almoços que se tornavam passeios à volta do fosso da cidade antiga quando o calor da tarde abrandava um pouco. Noites no mercado de domingo de Wualai, onde a Noi cumprimentava metade dos vendedores pelo nome e eu tentava pronunciar corretamente o nome da comida que ela me estava a comprar.

Ensinou-me a andar de scooter em estradas que nenhum GPS conhecia. Arrozais a florir. Campos de girassóis na época. Aldeias da tribo Karen onde tinha ido em criança com a família.

A Tailândia que a Noi me mostrou não estava em nenhum guia de viagem.

Dois meses depois, apresentou-me à família. A mãe. O pai, um homem calado que trabalhava na construção e que me olhou durante todo o primeiro jantar com a expressão de alguém que está a avaliar algo e ainda não chegou a uma conclusão. A avó, que não falava nada de inglês mas que me servia mais comida cada vez que o meu prato ameaçava ficar abaixo dos setenta por cento da capacidade.

A diferença de idades era o tema que não se nomeava mas que estava na sala. Senti-o em alguns olhares. Senti-o quando o pai da Noi me perguntou, usando-a como tradutora, a que me dedicava e se tencionava ficar na Tailândia.

Não lhe menti. Disse-lhe que não tinha um plano fixo, que trabalhava remotamente, que Chiang Mai me tinha surpreendido mais do que esperava.

Olhou para mim durante um bom momento depois de ouvir a tradução. Depois assentiu e serviu-me mais arroz ele próprio. Foi a sua forma de me dizer algo sem palavras. Não sei exactamente o quê, mas soube que era positivo.

Fiquei. O mês de experiência tornou-se dois, os dois tornaram-se quatro, e a determinada altura deixei de ter data de saída no calendário e comecei a ter consultas de renovação de visto.

Aluguei um apartamento no bairro de Nimman. A Noi e eu começámos a passar mais noites do que manhãs juntos, que é uma forma elegante de dizer que vivíamos basicamente juntos antes de qualquer um de nós o verbalizar.

O meu trabalho funcionava perfeitamente a partir daí. As chamadas com clientes americanos fazia-as de madrugada hora tailandesa, que em Seattle era início da tarde. O resto do dia era meu.

Comecei a aprender tailandês a sério. Não o tailandês de turista de "sawadee khrap" e números de um a dez. Tailandês real, com aulas três vezes por semana com um professor chamado Arthit que tinha uma paciência infinita com a minha incapacidade de distinguir tons.

A Noi ria-se cada vez que praticava em casa. Não de forma maliciosa. Da mesma forma que se tinha rido da primeira vez que tentei pedir um café.

Casámos num sábado de novembro, dezanove meses depois dessa primeira conversa no café. O casamento foi em Chiang Mai, no jardim da casa dos pais da Noi. Cinquenta pessoas. Cerimónia budista de manhã, que durou três horas e da qual percebi aproximadamente vinte por cento mas que foi uma das experiências mais bonitas da minha vida. Comida para um exército. Música até bem depois da meia-noite.

A minha mãe veio de Portland para estar lá. Tinha setenta e dois anos e nunca tinha saído da América do Norte. Passou toda a cerimónia com os olhos húmidos e no final da noite estava a dançar com a avó da Noi, que também não falava inglês, mas ao que parece a dança não precisa disso.

A minha mãe disse-me ao ouvido antes de entrar no avião de volta: "Esta mulher devolveu-te algo que eu não sabia que tinhas perdido." Não lhe perguntei o quê exatamente. Não foi necessário.

Passaram dois anos desde o casamento. Continuo em Chiang Mai. O negócio de tradução da Noi cresceu até ter três funcionários. Reduzi a minha lista de clientes americanos a metade e comecei a trabalhar com empresas asiáticas que precisam de consultoria tecnológica com perspetiva ocidental.

Aos fins de semana continuamos a andar de scooter para sítios que não estão em nenhum mapa. Continuamos a comer com a família da Noi aos domingos. O pai dela e eu desenvolvemos um sistema de comunicação que consiste principalmente em acenar, sorrir, e ver jogos de futebol juntos em silêncio.

Funciona na perfeição.

Se estás a ler isto de algum lugar onde a vida parece demasiado previsível, demasiado ordenada, demasiado igual a ontem, não te vou dizer para apanhares um voo para a Tailândia e que o amor te está à espera num café de Chiang Mai.

Mas digo-te isto: às vezes o melhor capítulo da tua vida começa quando deixas de tentar controlar o argumento.

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