Capa: Seiscentos mil bahts. Dezoito meses. E um americano de 29 anos que nunca conheci.

Seiscentos mil bahts. Dezoito meses. E um americano de 29 anos que nunca conheci.

Em resumo

Um professor reformado achava que construía um futuro com Lek. Dezoito meses e seiscentos mil bahts depois, descobriu quem estava mesmo a financiar.

Escrevo isto porque deixou de doer e tornou-se numa história que se conta ao jantar.

Demorei algum tempo a chegar até aqui.

Chamo-me Malcolm. Tinha 72 anos quando tudo isto começou. Professor de história reformado de Melbourne. Três anos a viver como expatriado em Chiang Mai quando conheci a Lek. Vim para a Tailândia porque depois de trinta e cinco anos a ensinar no secundário, o meu corpo disse-me que era suficiente, e a minha mente disse-me que precisava de ver algo novo antes que fosse tarde demais.

Chiang Mai pareceu-me exatamente o que procurava. Sossegada. Acessível. Cheia de reformados ocidentais e expatriados com camisas de linho a falar de mindfulness em cafés com boa ligação à internet. Integrei-me sem dificuldade. Mais um reformado ocidental na Tailândia que tinha encontrado o seu lugar.

---

Conheci a Lek num bar pequeno perto do Night Bazaar.

Quarenta e três anos. Tailandesa. O tipo de mulher que te ouve de uma forma que te faz sentir a pessoa mais interessante que alguma vez conheceu. Tornei-me habitual em duas semanas. Chegava às oito. Ela guardava o banco ao fundo do balcão para mim.

Não vou entrar nos detalhes de como funciona esse mundo porque quem passou tempo em Chiang Mai já os conhece. Pagava o bar fine dela a maior parte das noites. Acabei por propor um acordo mensal: vinte e cinco mil bahts para que pudesse deixar o bar. Ela aceitou. Senti-me generoso. Senti-me, se sou honesto, um pouco heroico.

O total em dezoito meses foi de cerca de seiscentos mil bahts.

Pensava que estava a construir algo.

Estava a financiar algo completamente diferente.

---

O nome dele era Tyler.

Vinte e nove anos. Americano. A tentar construir um negócio de coaching online que ainda não gerava dinheiro. A Lek acreditava nele. Queria apoiá-lo durante a difícil fase inicial. Precisava de capital.

Eu era o capital.

Cada baht que lhe dava para a renda, para os medicamentos da mãe, para as despesas do mês, era silenciosamente redirecionado para manter a vida do Tyler a flutuar. A renda dele. O espaço de coworking. Até um curso de marketing digital de quarenta mil bahts que eu tinha pago sem saber.

Pergunto-me se o Tyler sabe que a sua formação em marketing digital foi paga por um professor reformado de Melbourne que nunca soube que ele existia.

---

Quando a confrontei, ela não negou nada.

Sentou-se à minha frente com uma calma que na altura me perturbou e que agora, com distância, reconheço como a calma de alguém que já tinha tomado as suas decisões muito antes dessa conversa.

Disse-me que genuinamente se importava comigo. Que o que tinha com o Tyler era diferente e que eu não iria compreender.

Provavelmente tinha razão nessa última parte.

Conduzi até casa e sentei-me na varanda a pensar no Tyler. Um rapaz novo em Chiang Mai, apaixonado, a construir o seu sonho, com um professor reformado de Melbourne de 72 anos como anjo investidor involuntário.

Espero que o negócio de coaching tenha resultado, Tyler.

---

As pessoas perguntam-me se estou amargurado.

A resposta honesta é que no início sim. Bastante. Havia algo na precisão de tudo aquilo, no carácter metódico do engano, que era mais humilhante do que o próprio engano. Não fui vítima de um impulso. Fui uma decisão calculada e sustentada durante dezoito meses.

Isso demora a digerir.

Mas há algo em que tenho pensado muitas vezes desde então e que me ajudou mais do que esperava: a Lek não me mentiu sobre tudo. Tratava-me bem. Passávamos tardes inteiras a falar da infância dela em Chiang Rai, da vez que tentou aprender inglês com telenovelas americanas, do templo a que ia com a mãe quando era criança.

Nada disto era fingido. Eu sei. Há coisas que não se conseguem fingir durante dezoito meses.

Ela simplesmente também amava o Tyler. E precisava de dinheiro. E eu estava disponível.

A moralidade disso deixo-a para alguém com mais energia do que eu.

---

Ainda estou em Chiang Mai.

Saio menos à noite. Tenho amigos, uma rotina, uma banca de mercado onde conhecem o meu pedido habitual. Comecei a dar aulas de inglês de forma voluntária a crianças de uma escola do bairro às terças-feiras à tarde.

Na terça-feira passada uma criança perguntou-me de onde era. Disse que da Austrália. Perguntou se a Austrália ficava perto de Chiang Mai. Disse-lhe que não, que ficava muito longe.

Perguntou por que tinha vindo tão longe.

Disse que porque gostava.

E ao dizê-lo apercebi-me que continuava a ser verdade.

Isso, aos 75 anos, ainda é suficiente.

Continuar a ler

Histórias relacionadas