Pedi para ver o passaporte dela e saíram todas as desculpas possíveis. Foi aí que tudo se virou.
Em resumo
Um britânico de 35 anos, mesmo saído de uma rutura devastadora, conta a sua primeira viagem à Tailândia com dois amigos ambos chamados Paul, um recorde de Jenga, um desafio de pimentas quase fatal, e uma relação com uma rapariga chamada A que acabou da pior forma possível.
Chamo-me Dave, tinha 35 anos, era de uma cidade perto de Manchester, e estava mesmo saído de uma relação que tinha acabado por mensagem, sem aviso nenhum, num domingo à noite qualquer. Quatro semanas antes disso tínhamos descoberto que ela estava grávida, por isso passei de imaginar uma vida inteira com ela a ficar completamente sozinho no espaço de um mês. Estava destroçado, sem exagero nenhum, mal conseguia fazer mais do que ir trabalhar e voltar para casa, dia após dia no mesmo ciclo sem graça.
O meu sobrinho e um amigo, os dois chamados Paul, o que gerava confusão constante sempre que estávamos os três juntos, apareceram numa noite com umas cervejas, sem avisar, disseram-me que já tinham uma viagem à Tailândia marcada havia meses e disseram-me sem rodeios para ir com eles. Não me apetecia ir a lado nenhum naquela altura da minha vida, muito menos para o outro lado do mundo, mas de alguma forma, cerveja atrás de cerveja nessa mesma noite, acabei por reservar o mesmo voo para duas semanas depois, quase sem reparar em que momento exato tinha dito que sim a tudo aquilo.
Nunca tinha saído do país. Nunca tinha andado de avião na vida. Os dois Paul falaram-me de templos e de calor, mas deixaram bastante informação pelo caminho, de propósito, como percebi mais tarde.
Fiz a mala com calças de ganga, uma camisola e um casaco, exatamente o que se levaria para qualquer viagem normal saída de Inglaterra. Eles levaram calções e t-shirts, e sorriram durante todo o voo repetindo aquilo de "o que acontece na Tailândia fica na Tailândia". Não fazia a mínima ideia do que queriam dizer com aquilo.
Aterrámos em Banguecoque por volta das 22h, no início de abril, e saímos direto para o calor. Fui a correr às casas de banho e mudei de roupa imediatamente, já a suar só de atravessar o terminal.
À meia-noite íamos num táxi a caminho de Pattaya, com os dois Paul a dar indicações ao condutor num tom que deixava claro que não era a primeira vez que faziam aquele trajeto, dizendo-lhe para ir direto a Walking Street sem passar pelo hotel primeiro. Saí daquele táxi e os olhos quase se me saíram da cabeça, luzes néon por todo o lado, música a sair de cada porta aberta, gente por todo o lado àquela hora da noite. Nunca tinha visto nada parecido em toda a minha vida, nem de longe, nem sequer na televisão.
Na primeira noite acabei por conhecer uma mulher que na altura pensei que gostava mesmo de mim. Na manhã seguinte pediu-me uma gorjeta bastante generosa e eu pensei, ingenuamente, que queria dinheiro para o táxi de volta.
Ao pequeno-almoço mencionei isso sem lhe dar grande importância e os dois Paul desataram a rir à mesa. Ao que parece era outra dessas coisas que se tinham esquecido de mencionar antes da viagem.
A viagem esteve realmente cheia de boas memórias. Numa noite fiquei obcecado com um jogo de Jenga num bar e acabei por bater o recorde histórico do local. O bar inteiro explodiu em aplausos. A minha foto ficou pendurada na parede, e o meu sobrinho confirmou-me um ano depois que ainda lá estava, exatamente no mesmo sítio.
Noutra noite alguém me desafiou a comer umas pimentas pequenas vendidas numa tigela junto ao balcão, achando que seriam suaves por serem tão pequenas, do tamanho de uma unha. Não eram, nem de longe. Os lábios incharam-me em segundos, comecei a suar como nunca na vida, e estava completamente convencido de que a cabeça me ia explodir a qualquer momento, literalmente, sem exagero nenhum. O pessoal do bar reparou logo que eu estava mesmo mal e trouxe-me uma espécie de bebida de leite sem que ninguém pedisse, coisa que depois me explicaram que ajudava muito mais do que água. Nunca na vida estive tão agradecido por algo tão simples como um copo de leite.
Conheci uma rapariga a quem todos chamavam A e passámos a última semana inteira juntos, praticamente sem nos separarmos, a comer juntos, a passear pela praia ao fim da tarde quando o calor abrandava, a rir-nos do meu tailandês inexistente. Nunca me pediu dinheiro diretamente, só a multa diária do bar para poder sair comigo nessa noite, coisa que na altura me pareceu razoável e continuo a achar que era. Quando me fui embora veio ao aeroporto com toda a família à espera mesmo junto à entrada, avaliando-me num inglês bastante limitado entre todos eles, tentando perceber quem eu era em poucos minutos. Chorou a sério quando me afastei em direção ao controlo de passaportes, e eu também não estava lá muito seguro de mim.
De volta ao Reino Unido descobri que ainda tinha dez dias de férias por usar. Reservei outro voo para o mês seguinte quase sem pensar. Quando cheguei, a A estava à espera no aeroporto e disse-me que podia ficar em casa dela para poupar no hotel.
Nada me tinha preparado para o que aquilo realmente significava: um quarto completamente vazio à exceção do essencial, todos os pertences dela metidos em sacos de plástico espalhados pelo chão em vez de num armário, nem um único móvel reconhecível como tal, sem ar condicionado em pleno abril, um colchão fino diretamente no chão de cimento. Acordei no dia seguinte coberto de picadas de mosquito da cabeça aos pés, contando-as quase por curiosidade no duche. Fiquei mesmo assim, mais uns dias do que tinha planeado inicialmente, porque gostava mesmo muito dela e não queria que aquilo acabasse já.
Começámos a falar em tratar-lhe um visto para vir ao Reino Unido. De alguma forma acabei sentado num escritório a preencher papelada de visto e a deixar um depósito bastante considerável.
Ela disse-me que tinha passaporte próprio, coisa que na altura não pus em causa, e pedi-lhe para o ver um dia sem grande alarido. Saíram todas as desculpas possíveis, que se estava em casa da mãe, que se o tinha deixado noutro lado, que para quê ver se já estava a ser tratado. Enquanto ela tomava banho uma tarde, procurei-o eu próprio entre os sacos de plástico, sentindo-me mal por o fazer mas incapaz de parar. O passaporte tinha carimbos que não batiam certo com nada do que me tinha contado, e entre eles, seis meses passados em Paris dois anos antes, coisa que nunca tinha mencionado uma única vez em todo aquele tempo. Quando a confrontei com isso mal saiu da casa de banho, disse-me que uma amiga o tinha pedido emprestado depois de perder o dela, uma explicação que nem a ela própria pareceu convencer enquanto a dizia.
Disse-lhe, com toda a calma que consegui reunir naquele momento, que precisava de espaço para pensar bem em tudo e que essa noite ia ficar noutro sítio, só essa noite, nada definitivo ainda. Foi exatamente nesse momento que tudo se virou por completo, sem qualquer transição. Ficou completamente fora de si, a atirar coisas pelo quarto todo, garrafas, roupa, o que tinha à mão, tentando bater-me várias vezes, procurando qualquer forma de me magoar que lhe ocorresse naquele instante. Agarrei o que pude à pressa, carteira, passaporte, pouco mais, e saí dali enquanto ela gritava coisas que não percebia bem e me atirava objetos pelo corredor atrás de mim enquanto corria para a rua.
Cancelei o pedido de visto na manhã seguinte, com as mãos ainda a tremer um pouco. Passei o meu último dia inteiro fechado num hotel, mal saindo.
De volta a Inglaterra tive bastante tempo para pensar em tudo o que se tinha passado.
Tentar transformar numa coisa a sério uma rapariga que se conhece num bar de Walking Street raramente resulta, e há histórias suficientes por aí, contadas por gente que passou exatamente pelo mesmo, para confirmar isso vezes sem conta. Não vou cometer esse erro outra vez, disso tenho a certeza absoluta agora. Mas pela Tailândia como país apaixonei-me completamente, sem quaisquer reservas, os templos, a comida, as pessoas normais que conheci fora dos bares, e vou voltar assim que conseguir organizar isso com calma.
Os dois Paul podiam ter-me avisado de algumas coisas antes de subirmos para aquele avião, sobre as gorjetas, sobre as multas dos bares, sobre praticamente tudo o resto. Mas, sinceramente, teria eu ido de todo se me tivessem contado tudo antes?